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NOTA: 9 / Renato Furtado

“O cinema é a arma mais poderosa”, declarou o ditador Benito Mussolini em 1938, à época da inauguração da Cinecittà, um imenso complexo de produção de filmes localizado nos arredores de Roma. Apesar de ter sido dita por um facínora da envergadura do fascista italiano, a sentença é plenamente verdadeira. Hitler e seu ministro de propaganda já haviam percebido isso quatro anos antes, quando Leni Riefensthal filmou a monumental reunião do partido nazista em “Triunfo da Vontade”. Com a guerra se aproximando, era apenas questão de tempo para que os Estados Unidos percebessem a validade das ideias dos fascistas.

“Five Came Back”, série documental da Netflix em três capítulos baseada no livro homônimo de Mark Harris, investiga a fundo o âmbito cinematográfico da iniciativa de guerra estadunidense do período acompanhando as experiências, as missões e as consequências da guerra para os cinco cineastas que decidiram abandonar suas aclamadas carreiras em Hollywood para se dedicarem à sua pátria: Frank Capra (“A Felicidade Não Se Compra”), John Ford (“Rastros de Ódio”), John Huston (“Relíquia Macabra”), William Wyler (“Ben-Hur”) e George Stevens (“Assim Caminha a Humanidade”).
Para traduzir o espírito daqueles anos conturbados e resgatar o significado completo do impacto que a tentativa de documentar a Segunda Guerra Mundial provocou nos cinco diretores individualmente e na sociedade ocidental, como um todo, o diretor Laurent Bouzerau decidiu fazer o mesmo que os cinco que regressaram fizeram: transmitir uma história real e necessária, da forma como foi vista e sentida, para sua plateia.
O retrato da experiência da feitura dos filmes de propaganda estadunidenses é construído sobre três elementos cruciais: a emocionante e minimalista narração de Meryl Streep, que mais uma vez nos entrega uma grande performance; a perspectiva histórica, tanto social e política quanto artística, dos comentários certeiros de cinco grandes realizadores contemporâneos (Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Paul Greengrass, Guillermo Del Toro e Lawrence Kasdan); e a belíssima remontagem dos filmes realizados durante a guerra – que, hoje, chegam a nós tratadas por Bouzereau como imagens de arquivo.
Essa abordagem é bem-sucedida porque atualiza as questões colocadas por Capra (espécie de produtor geral dos documentários da guerra) e seus companheiros para as sensibilidades de nossa época. Ao trazer a voz da atriz mais celebrada das últimas gerações, as figuras de cinco diretores que ajudaram a definir o panorama cinematográfico dos últimos 40 anos e a montagem dessas celebradas propagandas, Bouzereau encontra um caminho para narrar um acontecimento histórico com precisão jornalística ao mesmo tempo em que revela novos significados para imagens que já foram vistas e revistas inúmeras vezes.
Mas, de fato, é essa ultima ferramenta que se destaca. Por mais que a narração de Streep acerte todas as notas no momento certo e os comentários abram uma janela para as missões e para as personas de Capra e companhia, nenhum outro recurso produz tanto impacto em “Five Come Back” quanto o choque empreendido pela edição de Will Znidaric.
Muito além do mero resumo dos documentários que homenageia, essa ferramenta narrativa é o coração de “Five Came Back”. É a espinha dorsal de um ensaio fílmico que explora a persona de cinco grandes artesãos do ofício (eles são considerados, até hoje, como alguns dos maiores diretores de todos os tempos) e reafirma todo o poder e o potencial do cinema tanto como instrumento de propaganda (verdadeira arma de guerra, como Mussolini colocou) quanto como a fina, elegante e impactante forma de arte que é.
E, por fim, quando tudo culmina no terceiro e último episódio da série (“The Price of Victory” revisita as consequências da Guerra para todos os envolvidos), duas declarações em particular calam fundo no coração do já abalado público. A primeira, de George Stevens, coloca ainda mais peso na evidente constatação feita por “Five Came Back” sobre a força do cinema enquanto ferramenta de produção de identidades: “É algo intenso perceber em si mesmo aquilo que você mais odeia”.
Stevens declara isto assim que presencia os horrores e as marcas deixadas pela política de extermino nazista em Dachau, um dos maiores campos de concentração. Os filmes dirigidos por Capra e companhia foram encomendados pelo exército como uma forma de levantar a moral das tropas e ganhar apoio do povo estadunidense. Ou seja, os filmes do período ajudaram a reafirmar a identidade dos Estados Unidos como uma nação defensora da liberdade e da democracia.
No entanto, a identidade só pode ser formada a partir da alteridade, da diferença em relação ao Outro. O que a declaração de Stevens reconhece é a conivência para com a pratica do mal (“Somos todos nazistas, completou o cineasta) – e logo depois do fim dos combates na Europa, os Estados Unidos bombardearam atomicamente Hiroshima e Nagasaki, duas cidades de uma nação que foi inventada, de maneira racista, como a inimiga a ser exterminada (o Japão era como um formigueiro para os estadunidenses) a qualquer custo.
Por outro lado, a segunda frase, esta de Frank Capra, sentencia que os filmes só devem ser feitos pelos “valentes, ousados e moralmente intrépidos”, aqueles que “podem criar, fazer filmes e discutir a condição humana por duas horas no escuro”. Com o exposto em “Five Came Back”, Laurent Bouzereau prova ser um cineasta da envergadura pretendida por Capra. Porque, durante 3 horas, esse bravo realizador aponta o dedo para uma ferida que nunca cicatrizará – não nos deixando esquecer do passado, documentado extensivamente por aqueles cinco bravos realizadores – e ainda encontra tempo para nos dar uma ponta de otimismo e esperança de que o amor e a bondade, finalmente, prevalecerão um dia.

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