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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Paterson (Adam Driver) acorda todos os dias na mesma hora, dá um beijo no rosto de sua namorada, Laura (Golshifteh Farani), toma o café, coloca o uniforme, escreve algumas linhas de um novo poema, senta-se ao volante do ônibus e começa a dirigir, buscando os passageiros das ruas de Paterson, Nova Jérsei. Na hora do almoço, escreve mais um pouco. Volta ao serviço. Quando retorna para casa, janta, leva Martin, o cachorro, para passear e vai ao bar. Essa é a rotina de “Paterson”, o novo e poético filme de Jim Jarmusch.

Aliás, só mesmo com um cineasta como Jarmusch na direção para criar um estudo da rotina e dos detalhes mais microscópicos e importantes da vida de maneira acessível para o público. “Paterson” poderia ser facilmente um filme hermético, afastando o espectador médio por causa de sua natureza contemplativa, sua montagem paciente e sua estrutura de roteiro onde “nada”, em um sentido cinematográfico, acontece. Mas o que acontece é o contrário.

Enaltecendo a poesia do cotidiano através dos belos poemas escritos por Ron Padgett especialmente para o filme, Jarmusch e seu casal de protagonistas conquistam o público. O cineasta garimpa os pequenos instantes da vida de um casal durante uma semana para encontrar a beleza do hábito. E, como de costume, a simplicidade é a maior ferramente que Jarmusch para encontrar a complexidade que busca.

Desde o início de sua carreira, o diretor nunca evitou as grandes questões e em “Paterson” não é diferente. Aqui, ele aborda, principalmente, a crise de identidade e representação que é decorrente da passagem de uma época cultural e social para outra. Essa dinâmica está expressa na personalidade de Paterson, o personagem de Driver, que luta para permanecer analógico em um mundo digital – ele vive em uma cidade pequena onde todos se conhecem, escreve em seu “caderno secreto” e não usa celulares.

Ouvir as conversas de seus passageiros (todas funcionando como um retrato espirituoso, curioso e singelo de diversas realidades e de grupos sociais completamente diferentes entre si), por exemplo, é uma forma de se conectar com um mundo no qual não se encaixa muito bem – e mais uma forma encontrada por Jarmusch para valorizar a poesia que mora nos detalhes.

Por outro lado, Farani oferece o contraponto à interpretação de Driver. Laura completa as poucas palavras de Paterson com sua agitação constante e com seu desejo permanente de criar e de imprimir seu estilo visual particular em tudo o que faz – o preto e branco de sua estética está presente no design de seus cupcakes, no seu violão, nas cortinas da casa, nos tapetes e, até mesmo, no cachorro. Farani entrega uma interpretação perfeita como a musa de um artista que, ao mesmo tempo, é uma artista em busca de sua identidade.

“Paterson” é um dos filmes mais honestos, simples, diretos e (muito por causa de sua natureza justamente contemplativa e “realista”) mais complexos da carreira de Jarmusch e dos últimos anos no cinema. Uma verdadeira joia em forma de poesia cinematográfica, “Paterson” é uma obra que veio para ficar; é, com certeza, um daqueles filmes que serão revisitados durante anos a fio. A sorte é toda nossa.

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