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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

As relações entre o cinema e o teatro são tão antigas quanto são instáveis. Um nasceu do outro e o mais novo, eventualmente, veio a modificar o primeiro. Assim como o advento da fotografia transformou o campo das artes visuais e da pintura, o cinema, de certa forma, abriu novas possibilidades para o teatro. Esse é o tema de Vermelho Russo, novo filme do diretor Charly Braun, que inaugura um novo “subgênero”: a dramédia romântica documental.


Representando (ou talvez reinventando) versões de si mesmas, as atrizes Martha Nowill e Maria Manoella embarcam em um avião para a Rússia com o objetivo de estudar o famoso método de interpretação do papa da atuação, Constantin Stanislavski, in loco. Chegando lá, no entanto, a peça que encenam (“Tio Vânia”, de Anton Tchekov) levanta diversos questionamentos – tanto entre as duas quanto na cabeça do público.

Sempre com leveza e um belo trabalho de câmera, Charly Braun situa seu filme entre o ficcional e o documental para instigar e entreter sua plateia, criando uma corajosa e divertida mistura dos dois âmbitos cinematográficos. Ou seja, ao mesmo tempo em que acompanhamos a complexa relação das duas protagonistas – que transita entre o companheirismo e o rancor -, Braun lança a pergunta para nós: o que estamos vendo é real ou não?

Ainda que permaneça com um pé e meio na ficção de duas perdidas amigas que decidem sair do Brasil para tentar encontrar um caminho novo na Rússia, Vermelho Russo também é um documentário. No fim das contas, o longa é igualmente um registro sobre a realidade russa – a sequência da feira de pulgas nos arredores da capital é muito interessante -, sobre as ruas de Moscou e sobre a memória da sétima arte na Rússia, evidenciada através dos antigos funcionários da cinematografia soviética (uma das mais ricas de todos os tempos) que agora moram em um “retiro dos artistas”; e, principalmente, sobre o processo de construção de personagens, o processo da representação.

Conforme a crise entre as duas amigas aumenta (o único ponto fraco do filme reside ao redor da crise, que se instaura e é resolvida muito facilmente), a cena que ensaiam à exaustão ganha novas tonalidades e nuances diferentes ao ponto de não sabermos quem é quem, de não sabermos quem é Helena ou Manoella e quem é Sônia ou Martha. As duas atrizes, em performances cativantes, abrem inúmeras possibilidades e demandam nossa atenção o tempo todo: o filme é, sem dúvidas, praticamente todo delas.

Nowill (corroteirista) e Manoella, no entanto, nunca conseguem realizar a cena porque permitem que seu embate pessoal invada o meio da representação. O diretor de teatro quase enlouquece com as duas, repetindo e repetindo a encenação até que elas encontrem o ponto correto. Mas, como Vermelho Russo bem demonstra, a beleza da arte do ator reside no fato de que é preciso que um intérprete se deixe invadir pela ficção ao mesmo tempo em que a ficção sobre a qual trabalha é invadida pela sua realidade pessoal; e quando as duas correntezas se unem em um só rio, quando essa correnteza atinge o clímax emocional, a peça que encenavam ganha vida – a mesma vida que Vermelho Russo tem em toda sua duração.

Divertido, leve, veloz e, acima de tudo, inteligente, o filme de Braun – que tem como porta-voz, dentro de seu próprio filme, o personagem construído por Esteban de Colombi, protagonista da obra anterior do realizador, Além da Estrada – e cia. é um presente para a audiência. É o raro tipo de filme que transita com facilidade pelas verdades e mentiras contadas pelo cinema, e que, de quebra, ainda provoca boas risadas.

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