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NOTA: 7,5 / Renato Furtado*

“A vida é assim”, dizem, ora com pesar, ora com conformidade, os personagens de “Melhores Amigos”. Esta linha de diálogo é dita diversas vezes durante o filme, mas a repetição não é um problema. Pelo contrário, é justamente uma forma de cimentar o atestado do que sentimos ao experienciar o cinema de Ira Sachs.

Serenos e diretos, os longas do diretor compõem uma filmografia coesa que, apesar de ser aparentemente simples em sua forma e conteúdo, compensa com afetos e verdades todas as eventuais falhas (normalmente de ritmo, equívoco do qual “Melhores Amigos” não consegue escapar em dado momento) que surgem no percurso. No fim das contas, para Ira Sachs, precisão e controle narrativos são derivados do imenso amor que o cineasta nutre pelos personagens que cria.

O que resulta, portanto, é um longa que estabelece sua própria temporalidade de desenvolvimento (assim como foi em “O Amor é Estranho). É calmamente, na verdade, que “Melhores Amigos” acumula potência para retratar o impacto que uma transformação pode causar – especialmente nos anos de nossa juventude -, esmiuçando, com detalhes, o processo de transição em si.

Com a cidade de Nova Iorque, mais especificamente o bairro do Brooklyn, pulsando como uma criatura viva, funcionando como um personagem que praticamente coprotagoniza a trama, Sachs investiga um período turbulento nas vidas de Jake (Theo Taplitz) e Tony (Michael Barbieri), dois jovens que acabam se tornando melhores amigos por causa e apesar do processo de gentrificação (construção de novos edifícios e estabelecimentos comerciais em uma determinada área urbana que altera radicalmente a composição social e econômica local, encarecendo a região) sofrido pelo Brooklyn e dos erros e acertos de seus pais (os personagens de Greg Kinnear e Jennifer Ehle e de Paulina García, respectivamente).

O desenvolvimento de uma amizade é um pretexto para pesquisar os efeitos produzidos por um processo imobiliário em um bairro multicultural de Nova Iorque e vice-versa. Em “Melhores Amigos” é impossível dissociar a dimensão política da dimensão afetiva porque, assim como na vida, ambas as esferas se chocam nas ruas das cidades – esses sonhos de laboratórios de diálogos e trocas. É por isso que a tensão criada entre os personagens de Kinnear e de García (ambos fantásticos, assim como o resto do elenco, que traz diversas nuances e matizes de personalidades aos seus papéis) soam tão reais e emocionantes: por beberem direto da fonte de nosso cotidiano, acabam se tornando reais e emocionantes, muito mais do que pura ficção.

Esse tipo de interação, de inquietação cênica e dramática que produz esse pedaço de vida, praticamente a base do estilo de Ira Sachs, é exemplarmente visualizável em um momento protagonizado por Brian, o personagem delicadamente interpretado por Kinnear. Ele diz que, independente do que os jovens possam pensar, seus pais também são seres humanos, também se importam e tentam fazer o melhor que podem frente às situações que a vida apresenta. Enfim: são esses pequenos momentos, que trazem à tona pequenas verdades e sabedorias, que dão vida à “Melhores Amigos”.

Agridoce, afetivo, delicado, humano. Esses adjetivos praticamente resumem a obra de Sachs, o que não quer dizer, entretanto, que sua filmografia é resumível a um punhado de palavras ou que ele repete as mesmas técnicas para destrinchar as mesmas temáticas. Isso quer dizer que Ira Sachs continua encapsulando a vida “como ela é” da maneira brilhante como sempre fez

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

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