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NOTA: 9 / Renato Furtado

Receita para se fazer um dos melhores e mais críticos suspenses dos últimos tempos: 1) prenda um grupo de pessoas heterogêneo, composto por muçulmanos e cristãos em pé de guerra, dentro de um camburão; 2) faça o veículo rodar pelas tensas ruas da cidade de Cairo pós-deposição do presidente eleito Mohamed Morsi; 3) e observe o que acontece no interior desse cavalo de Troia, que tenta passar incólume pelo campo de batalha que a capital do Egito se tornou durante os protestos de 2013. Pronto, aí está: esse foi o passo-a-passo seguido por Mohamed Diab em seu mais recente trabalho, “Clash”.

Transparente, o realizador egípcio revolucionou seu estilo e atingiu, assim, um novo patamar. Depois de “Cairo 678”, longa fortemente baseado em uma estética aproximada do documental, com um tratamento imagético menos “polido”, Diab escolheu tomar o caminho contrário. Portanto, onde antes havia um maior interesse pelo real e um controle narrativo mais manipulador – fator que diminui a potência de seu filme anterior -, agora há uma precisão diretorial invejável e uma clara tendência à ficção.

Distanciado de seus pares árabes, principalmente dos artistas iranianos como Jafar Panahi e Abbas Kiarostami, que sempre favoreceram a abordagem da docuficção em suas carreiras, Diab prefere se aproximar do cinema ocidental para contar a história de seu corpo social. Como dispositivo escolhido, o camburão, um espaço pequeno e desafiador para qualquer produção e opção que, certamente, fez com que o cineasta favorecesse uma estrutura fílmica mais espetacular.

Porque se há algo que “Clash” faz muito bem é entreter. O espectador médio poderia descartar todas as considerações ideológicas e políticas postas por Diab que a película ainda funcionaria como o ótimo thriller social que é. No entanto, a franqueza do diretor não deixa pedra sobre pedra. Estilisticamente próximo do classicismo de Sidney Lumet em “12 Homens e Uma Sentença” e da condução frenética empreendida por Sang-ho Yeon em “Invasão Zumbi”, Diab, ainda assim, consegue inserir sua profunda crítica social por trás das ocasionais risadas e lágrimas provocadas e dos nervos aflorados e das unhas roídas pelo suspense.

Os dois lados, tanto os muçulmanos rebeldes quanto os cristãos que apoiam as forças da polícia e dos militares, que tomaram o poder após o golpe de Estado, não escapam do exame minucioso de “Clash”. Ambas as correntes ideológicas – religiosas e políticas – têm suas parcelas de culpa na fragmentação nacional sofrida pela sociedade egípcia. Entretanto, o que faz com que Diab e sua equipe realizem um salto é a preocupação do roteiro em iluminar saídas dentro do contexto – e nisso, o camburão, como espaço fechado e em movimento intermitente, é uma metáfora visual de extrema força.

Confinados, os personagens que compõem o elenco do longa são construídos, ao mesmo tempo,  como indivíduos autônomos e como engrenagens de uma estrutura maior. O que resulta desse caldeirão fervilhante é a ideia de sociedade pretendida por Diab. Para o cineasta, o importante é discutir a Política com p maiúsculo. A dispersão gerada entre os presos só existe por causa de suas religiões divergentes, por causa das narrativas ideológicas escolhidas por eles – e, que, evidentemente os escolheram.

Esqueçam a política com p minúsculo, Diab declara através de seus símbolos visuais – é preciso prestar atenção no jogo da velha inscrito na parede de ferro do automóvel – e de sua escrita perfeitamente cristalina, afetiva e emocionante. Em apenas um punhado de cenas, os personagens de “Clash” ganham facetas e características como em um rico estudo de personagens escondido atrás dos códigos do thriller social.

Os prazeres, os medos, a biologia e os desejos são os fatores que nos unem e é assim que Diab humaniza estes condenados e nos aproxima deles, tanto pelo viés da comédia quanto do drama humano. Por exemplo: apesar de serem egípcios, é fácil entender a conexão estabelecida entre os personagens quando o futebol vem à baila, fazendo com que eles esqueçam suas rusgas; afinal de contas, o esporte e a clássica rivalidade provocativa entre fãs de torcidas diferentes sempre reuniram “gregos e troianos” – ou, no caso, muçulmanos e cristãos.

Por outro lado, na cena mais bonita e emocionante de “Clash” – quando o lavador de carros, um morador de rua, revela que se passa por um bandido para ser temido e respeitado para, consequentemente, ser notado, abandonar a condição de marginalizado que lhe foi imposta -, Diab sumariza seu argumento: nossas paixões podem nos dividir, mas os afetos (essas emoções que constituem a Política) são as únicas coisas que podem nos salvar. Para o realizador, portanto, em nossas alteridades, somos todos semelhantes – e, por isso, “Clash” ressoa tanto em qualquer lugar do mundo, no coração do espectador de qualquer nacionalidade.

E como se não bastasse, “Clash” provoca espanto também por causa de sua difícil logística de produção. O discurso-diálogo estabelecido por Diab com seu público é fundamentado em imagens que não podem ter sido orquestradas como em uma ficção comum. Seja por causa do que acontece no exterior – vistos pelas janelas, as explosões e embates entre população e polícia parece ter sido retirados diretamente de um documentário -, ou no claustrofóbico interior do veículo – a interação entre os personagens é tão rica e natural que nenhum deles fica a esmo em momento algum, algo que acontece com frequência em longas com um elenco numeroso confinado em um espaço minúsculo -, “Clash” não parece ser ficção. E, de fato, não é.

Por ser tão bem executado e dirigido, compondo o primeiro plano e o fundo da imagem em um todo sincrético, “Clash” é daquela espécie rara de filmes que criam sua própria realidade, que são tão valiosos tanto na estética quanto na política exatamente por não dissociar uma esfera da outra.

Através do espetáculo, o cineasta encontra a mobilização. Em “Clash”, o meio se confunde com a mensagem. E as criaturas se confundem com o seu criador. Por isso, quando um dos jornalistas encarcerados declara que aquela missão de documentar a realidade “não é só um trabalho”, que as imagens que eles produzem “podem influenciar as pessoas”, não se engane: essa é a voz do próprio Diab. E ele não poderia estar mais certo.

 

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