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NOTA: 9 / Lorena Carvalho

Comédia de terror. É assim que algumas pessoas tentaram definir “Corra!”, mas a verdade é que apesar de ter pitadas de humor, o filme é um grande suspense que deixa o espectador apreensivo do início ao fim. Jogando com o medo e o racismo, o longa apresenta um roteiro inteligente que surpreende e conquista quem o assiste.

O filme já começa intenso, com a cena de um negro sendo raptado num bairro do subúrbio. Sua trilha sonora, muito importante para ditar o clima em toda a sua duração, é iniciada com uma música ritualística que acompanha os créditos e já dá o ritmo da história que vai ser apresentada. Porém, tão rápido quanto o filme lhe coloca nesse clima, ele puxa o espectador para uma realidade mais leve. Com uma música de jazz, ele apresenta um apartamento na cidade e sua história central.

Trata-se de uma situação corriqueira na vida de qualquer pessoa: um namorado se preparando para conhecer os pais da garota. A diferença, no caso, é o fato de Chris (Daniel Kaluuya) ser o primeiro namorado negro de Rose Armitage (Allison Williams), a caçula de uma família americana inteiramente branca. Apesar do receio, a apresentação de Chris para os Armitage ocorre num tom amistoso e os pais da moça o acolhem de braços abertos. Porém, com o passar do tempo, algumas coisas estranhas começam a acontecer e o rapaz percebe que a família de Rose, que só tem empregados negros, esconde um segredo macabro.

Cheio de piadinhas ácidas sobre o comportamento racista de pessoas que não assumem seus preconceitos, “Corra!” consegue divertir bastante o espectador. Porém, a verdade é que a maior parte dessas risadas são de nervosismo. Isso porque o filme consegue causar no público uma catarse com o desconforto do personagem principal em quase todas as cenas, devido principalmente, à incrível atuação de Kaluuya e de Catherine Keener, no papel da mãe de Rose.

As soluções para o mistério do roteiro é que não são lá muito claras. Com uma pegada de ficção científica, o filme perde um pouco a mão em seu final e, ainda que o espectador consiga entender por alto o que acontece, a explicação acaba não sendo integral. O problema é que isso gera questionamentos às atitudes de alguns personagens em cenas anteriores, como a corrida noturna do jardineiro Walter (Marcus Henderson) e a conversa que ele tem com Chris no dia seguinte. De qualquer forma, a finalização do filme é positiva, assim como os “plot twists” envolvendo personagens das quais ainda não se tinha criado suspeita.

Finalmente, além de funcionar como um filme de suspense estarrecedor, “Corra!” é ao mesmo tempo uma comédia ácida e satírica que cumpre seu papel de crítica social. Com a questão racial permeando toda a sua narrativa, o filme alcança as expectativas e conquista o público com sua tensão constante.

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