aqua

NOTA: 9 / Felipe Ribeiro

Brasil, Pernambuco, Recife, Praia da Boa Viagem, Edifício Aquarius. Essa é a localidade em que acontece o novo longa dirigido por Kleber Mendonça Filho. Com quase duas horas e meia de duração, “Aquarius” é um filme de personagem, em que acompanhamos o passado e o presente da confiante, inteligente e destemida jornalista Clara, interpretada de forma incrível e madura por Sônia Braga. Pelos primeiros versos da música tema do longa, podemos perceber a importância da memória e a força dessa mulher: “Hoje / Trago em meu corpo as marcas do meu tempo”.

Dividido em três segmentos, a primeira parte do filme se passa em 1980 no mesmo apartamento em que Clara vive nos dias atuais. Essa volta ao passado da personagem surge como necessidade para que possamos entender e seguir as decisões tomadas por ela no presente. Aqui, acompanhamos alguns dos momentos que Clara viveu no local, como a superação de um câncer de mama e o aniversário de 70 anos da sua tia-avó, Lucia – cujas memórias também são apresentadas em flashbacks para fortalecer a importância das lembranças e expôr a história de alguns objetos da casa, como os momentos sexuais felizes que Lucia teve em uma cômoda com o seu marido.

Quando chegamos ao presente, com Clara morando no local, nosso olhar foi conduzido no segmento anterior com lembranças saudosas da história do apartamento e dos seus objetos, nos tornando quase capazes de ver o local pelos olhos de Clara. Na apresentação do cotidiano da moradora, percebemos a importante relação entre o espaço e a pessoa; nesse sentido não apenas a personagem preenche a casa como também o local é responsável por trazer à tona e completar os anos em que a personagem ali viveu.

Importante frisar que essa volta ao passado não significa estagnação. Clara é uma mulher ativa, com sua vida sexual em dia e ciente de quais mudanças são necessárias e quais não são. Prova dessa renovação pode ser vista na fachada do prédio. Na década de 1980 ele era rosa, no presente ele é azul e em meio a trama Clara manda pintá-lo de branco. Há um espírito de renovação.

Contra esse estilo de vida, surge a modernização na forma de Diego (Humberto Carrão), um engenheiro recém-chegado de uma formação em Business nos Estados Unidos que deseja demolir o Edifício Aquarius para construir um moderno condomínio de alta classe. Assim como enfrenta as agitadas ondas do mar da praia de Boa Viagem, Clara também enfrenta a figura opressora da construtora, mesmo estando sozinha, sendo a última moradora remanescente do local e indo contra o pensamento dos seus três filhos, preocupados com a segurança da mãe.

Ao longo do filme, outras memórias são construídas na casa, como a de uma empregada que chegou a roubar Clara. Aqui, percebemos que todos os momentos vividos nesse local importam, assim como os que ainda estão por vir, como a noite de sexo que Clara vive com um garoto de programa enquanto uma orgia acontece no apartamento de cima – uma das várias manobras que a empreiteira achou que iriam abalar as decisões da personagem. A sexualidade no filme é apresentada de forma natural, como algo inerente ao ser humano.

Em diálogo com o momento atual, da necessidade de resistência contra as opressões no país, Clara precisa se manter firme em suas crenças e, ao mesmo tempo, ser volátil e enérgica como o oceano, para saber lidar com o jogo psicológico que a construtora decide fazer para alcançar seus objetivos. A resistência em “Aquarius” vem de duas frentes: mulheres e juventude. Além da já especificada luta de Clara, outra personagem feminina que fica do seu lado é sua atual doméstica, capaz de apontar o dedo na cara do engenheiro Daniel para colocar o seu ponto de vista sobre a ética de Clara. O apoio da juventude chega na figura do sobrinho da personagem principal, que fica ao lado da tia e a ajuda na sua luta contra a construtora.

A fotografia solar do filme nos traz a felicidade dos dias de Clara. De forma metafórica, a luminosidade dos planos de certa forma dialoga com a consciência e a clareza do ponto de vista da personagem. Nem com os momentos difíceis que ela enfrenta contra a construtora a luminosidade é alterada, apresentando assim que Clara não se deixa abalar pelo inconveniente, que está determinada a permanecer com sua casa, onde vivem suas memórias passadas, onde criou os filhos, e futuras, onde pretende receber os netos e netas, como a criança de sua filha Ana Paula, vivida por Maeve Jinkings – outro nome importante do cinema nacional contemporâneo.

A direção de Kleber Mendonça Filho nos faz ver a história pelo ponto de vista da personagem. Toma o tempo que for necessário, para que seus planos tenham a quantidade de tempo real, sendo eles felizes ou incômodos. Uma criação em que arquitetura e personagem se misturam. A presença do apartamento de Clara e da praia são intensas. Uma construção espacial que mostra um pouco da relação urbanística e da divisão geográfica social do Brasil, situação que o diretor também desenvolveu em “O Som ao Redor” (2012).

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