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NOTA: 9 / Felipe Ribeiro

“Martírio”, o nome dado ao filme por Vincent Carelli, antropólogo e indigenista, diz respeito a todas as colocações possíveis desse título. Martírio dos índios Guarani Kaiowá, pela luta há anos das terras que lhes são de direito. Martírio que é intensificado pelo posicionamento dos agropecuaristas. Martírio ao conhecer essa história, pouco divulgada e com baixo alcance no extenso território nacional. Na nossa sociedade contemporânea apressada, um martírio também ao espectador que se confronta com esse documentário nada fácil de 160 minutos de duração. Um martírio imenso ao ter conhecimento de que essa obra, com todo seu potencial político e de guerrilha, não vai ser abraçado pela indústria cinematográfica comercial, que vai ter espaços específicos. Mas, uma felicidade ao ver o filme trilhando seu caminho, conseguindo espaços, chegando ao público – mesmo que restrito se pensando em caráter de alcance comercial – e em saber que a luta continua. Não apenas de entretenimento se faz o cinema, arte que também provoca, fere e questiona.

Narrado em primeira pessoa pelo diretor, a opção pode parecer uma contradição, por ele ser um homem branco e não um indígena. Contudo, à medida que a obra se desenrola, percebemos a confiança dos indígenas nele e o entendimento de Carelli sobre a batalha desse povo que precisa dar o sangue para manter suas terras desde a Guerra do Paraguai. “Martírio”, é um longa que dá voz aos Guarani Kaiowá. É uma produção feita com eles, expondo as opiniões deles e contrapondo as visões inumanas da bancada ruralista e dos agropecuaristas.

Às vezes, nosso pensamento voa longe para pensar em sociedades com diferentes culturas de vivência e relação com espaço e a vida. “Martírio” prova que não é preciso ir tão longe assim. Relembra o diferente modo de vida dos indígenas e a diferente relação que possuem com o espaço onde vivem. Para eles, há importância de permanecer no lugar do nascimento, onde suas memórias foram construídas e onde seus antepassados foram enterrados. É preciso respeitar, se colocar no lugar e fazer associações pessoais para entender. No filme, entendemos que muitos agropecuarista acham vacas e bois mais importantes do que índios, seres humanos – essa é uma das afirmações feita por uma índia Guarani Kaiowá.

Tão pesado quanto uma longa aula de história sobre o holocausto, o filme tem poucos momentos de respiro, que aparecem às vezes na forma de deslocamento entre os diferentes grupos de Guarani Kaiowá. Há uma necessidade constante de atenção. Tudo que é mostrado é colocado de forma relevante. Tudo que é dito é necessário. Assim como eles precisam estar sempre de olhos abertos para possíveis ataques – à mão armada – o espectador precisa estar sempre atento.

A câmera na mão, transmite a ideia de um documentário intimista, que acompanha o momento e que se integra com esse povo sofrido. Conversa após conversa, narração após narração, entendemos mais sobre o posicionamento e as privações desse povo. Não apenas nós, espectadores, mas também o próprio diretor e indigenista. Esse momento fica claro com uma cena específica, gravada por Carelli anos atrás. No começo de “Martírio”, ele apresenta uma cena que diz ter começado a gravar logo quando chegou em uma reunião indígena, mesmo sem entender o que diziam, apesar de saber que era sobre território. No final, a mesma cena volta à tela, dessa vez com legenda, que Carelli só foi capaz de realizar anos depois, a partir dos seus estudos. A mudança dessa cena, que começa sem entendimento e termina esclarecida, pode ser uma metáfora para a sociedade no sentido de que se realmente quisermos entender, isso é possível.

 

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