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NOTA: 9 / Felipe Ribeiro

Seguindo o caminho iniciado com “Cópia Fiel” (2010) de deixar sua terra natal, Irã, e enveredar sua busca de relações humanas em outros países, Abbas Kiarostami vai ao Japão para realizar o filme “Um Alguém Apaixonado” (2012). O título nacional deveria ter recebido a tradução “Como Alguém Apaixonado”, que seria mais rígido ao original, “Like Someone in Love”, e faria mais sentido com a obra. O advérbio “como” é muito importante para a essência do filme, que ao longo do tempo deixa dúvidas para o espectador preencher e sempre paira como um ar de incerteza sobre a paixão entre os personagens.

Começando de forma repentina e terminando de forma aberta, o grande jogo da montagem e direção é o mistério, que prende a atenção. A cena inicial começa com a  personagem Akiko falando ao telefone em um restaurante/bar. Com quem fala? Quem ela é? O que faz ali? São perguntas que Kiarostami não tem pressa de responder ao espectador. No decorrer da cena, entendemos que a jovem é uma garota de programa e que está sendo chamada para um encontro com um cliente importante. Quando ela entra no carro para chegar ao seu destino, nem ela e nem o espectador sabem o que acontecerá ou quem a personagem encontrará. Suspense que é segurado por um longo trajeto de carro em meio às ruas de Tóquio, oferecendo uma linda fotografia com reflexos das luzes da cidade e de Akiko na janela do automóvel.

Quando ela chega ao destino e conhecemos quem a contratou, o sociólogo de terceira idade Takashi, algumas perguntas se fecham, mas um novo leque se abre. Por que ele a chamou? Quais são suas intenções? Ele fez isso por solidão? Mais uma vez não sabemos e, assim, muitas questões vão ficando no caminho ao longo da história, deixando cada vez mais claro que o longa “Um Alguém Apaixonado” depende muito do preenchimento subjetivo de lacunas das pessoas que assistem à obra.

Os acontecimentos do filme são como as incertezas das escolhas que fazemos na vida, precisamos vivê-las para saber. No filme, precisamos de um plano após o outro para desvendar essa história até trivial, quando pensada sozinha, da relação entre um homem idoso e uma garota de programa. A montagem dos planos de longa duração para gerar mistério e a bela composição da fotografia fazem o completo diferencial para que a trama ultrapasse essa trivialidade.

Como as melhores produções de suspense, Kiarostami dirige este thriller de amor e cotidiano expondo as diferentes facetas de uma pessoa. Akiko é estudante, proveniente de família rural e garota de programa. Takashi é um intelectual, tem atitudes carinhosas de um avô e também desejos como qualquer pessoa. O namorado de Akiko primeiro se apresenta inseguro e depois determinado a se vingar. Percebem? As diferenças, momentos, dicotomias e contradições de todo ser humano: essa é a construção feita pelo diretor no filme.

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