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Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

julho 2017

Em Ritmo de Fuga

Nota 6.5 / Nathalia Barbosa

“I must apologise if my lady should discover how I spent my holidays”
O diretor Edgar Wright conseguiu fazer um filme de ação com carros, mas sem homens musculosos no comando. Como? Baby, interpretado Ansel Elgort – famoso por seu papel em A culpa é das estrelas – é um jovem rapaz que tem um incrível talento na direção, sendo um ótimo motorista de criminosos. Baby representa uma fuga perfeita: com cortes, mudança de ângulos e movimentos dos personagens com as músicas que compõem suas trilhas sonoras – que, aliás, estão por toda parte de sua enorme coleção de Ipods – entende cada detalhe de um plano criminoso; é um verdadeiro demônio no volante.
Seu trabalho é um pagamento à dívida do mafioso Doc (Kevin Spacey). Ao longo do filme, o motorista vai se complicando cada vez mais nesse submundo, até que não vê nenhuma saída desse tipo de trabalho. Tendo de lidar com os assaltantes que Doc contrata para fazer os trabalhos, Baby tem de conviver com todo tipo de estereótipo de criminoso: Buddy (Jon Hamm) é um homem fortão legal, mas que muda completamente quando alguém lhe desagrada, Darling (Eiza González) é a sedutora criminosa ousada e Bats (Jamie Foxx) é o cara radical e com enorme sede de matar.
No bastidor do trabalho excêntrico de Baby, descobrimos que há uma vida de traumas e afetos com Joseph (CJ Jones), o “pai” adotivo já que o demônio motorista perdera a família muito cedo em um acidente de carro, e Debora, a garçonete da lanchonete onde Baby compra seus cafés todos os dias e que lhe chama atenção com as músicas que cantarola. Após se conhecerem, tentam perseguir um sonho de dirigir pela estrada abandonando suas vidas complicadas.
Com uma ótima montagem e trilha sonora, “Em ritmo de fuga” consegue se salvar apesar de estarmos saturados com tantos filmes de ação envolvendo carros. Nessa proposta musical, até o baixista do Red Hot Chili Peppers esteve envolvido, mas Flea, dessa vez, afasta-se de seu trabalho oficial para interpretar um personagem de curta participação. Eu diria que o longa de Wright é um respiro diante de tantos Velozes e Furiosos que enchem as salas de cinema.

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O filme da minha vida

Nota: 7 / Nathalia Barbosa

O novo longa de Selton Mello como diretor no cinema é bom, mas não é suficiente para falarmos que ele tem um futuro promissor do outro lado das câmeras. Nas palavras do diretor, O filme da minha vida não é uma adaptação, mas a representação imagética e sonora do livro “Um pai de cinema”, do chileno Antônio Skármeta. Ainda bem que ele fala isso, pois o filme destoa quase completamente do livro, até mesmo nos nomes dos personagens, sendo a maioria diferente.

A narrativa conta a história de Tony (Johnny Massaro), um jovem filho do francês Nicolas (Vincent Cassel) que, morando no interior gaúcho, afasta-se de casa para estudar e ganhar o diploma de professor. É no mesmo trem de volta para seu lar que o pai o toma para desaparecer de sua vida, deixando-o desamparado e angustiado pela falta de pistas por parte de sua mãe Sofia (Ondina Clais).

Tony perde seu maior ponto de referência e, em busca de uma existência independente, tenta acelerar esse processo ao procurar uma moça na Zona para tirar sua virgindade. Nessa empreitada, há dois companheiros: seu aluno Augusto e seu amigo Paco (Selton Mello). A jornada dá o toque de trivialidade ao filme, colocando questões sobre sexualidade, existencialismo e paixões de forma rasa. É nesse contexto que Tony tem fantasias com o mínimo de sugestividade das irmãs de Augusto: Luna e Petra. Como conflito, ao longo do filme, descobrimos que coisas mais sérias do que as descobertas sexuais de Tony ronda a relação de todo os moradores e ex-moradores do pequeno vilarejo.

Graças ao belo trabalho de fotografia de Walter Carvalho, o filme ganha um tom poético por meio das imagens e da montagem que lhe deixa atraente e, somando-se ao cenário e à trilha sonora de Plínio Profeta, lembra “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Podemos dizer, em suma, que é uma história rasa, mas que consegue nos transmitir nostalgia. Aliás, sendo mais uma parceria entre a produtora mineira Vania Catani e Selton Mello, vemos um estilo se repetir, como o tom do questionamento existencial dominando o filme, assim como O palhaço, por metáforas sutis e sentimentais.

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída

Nota: 8 / Nathalia Barbosa

O “Eu” ao início do título do filme idealizado pelo diretor alemão Uli Edel dá a ideia de autobiográfico, aproximando-se do livro. Porém, para quem espera um tom confidente materializado em voz off pode se decepcionar.

A seleção para o roteiro, feita por Edel e os jornalistas Kai Herman e Horst Rieck, que colheram os depoimentos de Christiane durante seu julgamento pela polícia alemã, dando origem  ao livro, reduziu muita coisa. O longa mostra uma Christiane (Natja Brunckhorst) aventureira e logo no início já foca em sua ida à boate Sound, com a amiga Kessi (Ellen Esser), considerada a mais moderna de Berlim.

Não há a mesma contextualização do livro – um conjunto de prédios chamado Gropius onde não há espaço para lazer de crianças, um pai abusivo que espanca as filhas e a esposa, tendo vergonha da própria família, nem do desencantamento de Christiane ao se mudar do campo para a cidade.  A grande atuação de Natja consegue transmitir a sensação de desamparo da jovem nessa época, mas não é suficientemente forte como a crítica social do livro que expõe várias problemáticas relacionadas a frustrações oriundas de uma sociedade de consumo pós-guerra.

Na primeira ida de Christiane F. à Sound, ela já conhece Detlef (Thomas Haustein) e apesar de resistir a muitas coisas que a boate lhe oferecia, tendo certo juízo de que aquilo era errado, a adolescente logo se rende aos encantamentos de perigos que lhe prometem uma fuga da realidade.

Há, então, uma linda sequência de um roubo com seu grupo de amigos a um shopping: adolescentes frustrados correndo e caindo em meio a vitrines de estética clean. Era a exposição do choque entre liberdade e lugares cada vez mais higienistas e padronizados enquanto toca “Heroes”, de David Bowie, representando a ideia daquele que faz algo extraordinário ao menos um dia. Para alguns, pode soar como uma inspiração a “As Vantagens de Ser Invisível”, escrito e dirigido por Stephen Chbosky.

A questão é que tudo fica trash quando todos são apresentados a uma droga mais pesada em moda na época: ironicamente, a heroína. Após um show de Bowie — o filme realmente conta com a participação do artista, ídolo da protagonista na vida real — o qual Christiane vai com seu amigo Frank, o mais viciado da turma, ela decide experimentar após arrumar a droga para seu amigo que estava em crise de abstinência. A narrativa, a partir deste ponto, foca na degradação de jovens que se prostituem para suprirem a “necessidade” de heroína.

O que temos, então, são cores frias em cenários espalhados pela estação de metrô Zoo, onde drogados fazem qualquer coisa pela droga e a morte dos viciados passar a ser o cotidiano publicado pelos jornais. Apesar da falta de contextualização, deixando o filme moderadamente raso, e encurtamento da trajetória de Christiane — o filme, por exemplo, não mostra seu relacionamento com Atze —, a mensagem ainda é objetiva: drogas não valem a pena. Mas para quem, mesmo assim, achou o filme pesado, isso é quase nada se comparado ao livro.

   

Fala Comigo

Nota: 5 / Nathalia Barbosa
O filme de Felipe Sholl, aclamado no Festival do Rio, engana. Com uma proposta forte de problematizar saúde mental e relações de poder entre ligações afetivas e familiares, perde-se em seu roteiro e acaba sendo irresponsável, vazio e não envolve o espectador.
A narrativa gira em torno de Diogo (Tom Karabachian): um menino de 17 anos, tensionado pela época do vestibular, que satisfaz sua libido ligando para mulheres que são pacientes de sua mãe, terapeuta, e, enquanto ouve suas vozes, permanece no mudo. Diogo, então, registra nome da moça e horário em um papel onde goza.
Como contexto, a mãe de Diogo – interpretada por Denise Fraga -, uma psicanalista, não compreende o que se passa com o próprio filho e está envolvida em uma separação com a família. Em uma casa onde o silêncio reina nas refeições, o ápice da trama ocorre quando Diogo, em meio aos conflitos familiares e com suas próprias pulsões, recorre a uma paciente de sua mãe, Ângela (Karine Teles), de 43 anos, sendo seu primeiro relacionamento e suas primeiras descobertas.
A questão é: Ângela transfere suas frustrações a um menino com menos experiência? Ele é uma pessoa matura, apesar de seus constumes secretos e sua mãe estaria reprimindo suas vontades como uma espécie de superego? O longa não foi capaz de tratar as questões que levanta com responsabilidade e profundidade e o seu final é extremamente vazio e parece pular uma parte da história depois de uma trama arrastada. Além disso, não há uma direção envolvente e as falas são superficiais. Em suma, fraco e desperdiça grande potencial.

Frantz

Nota: 8,5 / Nathalia Barbosa

Quando é lançado mais um drama baseado na Primeira Guerra Mundial, é quase impossível não imaginar uma estrutura se repetindo no cinema: uma discussão sobre diferenças com um final triste e relacionado à morte. Porém, Frantz inova graças a uma belíssima combinação entre roteiro e fotografia que usa cor como elemento dramático na narrativa. Inspirado pelo pintor alemão Caspar David Friedrich, o diretor François Ozon recorre à alternância de preto e branco com cenas coloridas para marcar irrupções no luto.

O filme inverte a estrutura típica de filmes do gênero. O fato que dá início à narrativa é uma morte que causa impacto mesmo sem ser mostrada. Anna, interpretada por Paula Beer, é uma alemã que como muitas outras mulheres pelo mundo, perdeu seu noivo no Front. É no túmulo de Frantz (Anton Lucke), que a narrativa ganha outros contornos graças ao encontro de Anna e o amigo de seu ex-noivo, Adrien (Pierre Niney).

Em meio ao luto, Adrien conquista a família alemã de seu amigo Frantz por ter um jeito parecido: simpático melancólico e pacifista. Porém, por ser francês, desperta desconfiança e vingança de moradores alemães. Em meio ao convívio do francês devido às boas lembranças que trazia, Anna estreita suas relações e acaba se apaixonando na tentativa de dar uma chance à possibilidade de sua felicidade.

Com o destaque de sons simples como o barulho de sapatos batendo ao chão, o farfalhar das folhas de árvores e até o barulho da respiração, Frantz é um filme sensível e intimista, mas não cai no típico melodrama. Longe de ser um filme comum sobre amor, ele é muito mais sobre perdão e questões razoáveis que dão rumo a uma vida tranquila do que pessoas apaixonadas tão irracionais como a guerra. Em suma, traz a relevância do controle e escolhas. Pode ser que tais considerem mais o bem coletivo do que o interesse individual, mas é perceptível que Ozon deixa o espectador com uma margem de dúvidas graças a sua bela construção do destino de Anna.

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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Nota: 7 / Nathalia Barbosa

Engraçado: esta é a palavra que define totalmente o novo Homem-Aranha. Novo, aliás, em todos os sentidos. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” mostra o herói em sua fase mais nova, com 15 anos.Engraçado: está é a palavra que define totalmente o novo Homem-Aranha. Novo, aliás, em todos os sentidos. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” mostra o herói em sua fase mais nova, com 15 anos.

Usando a efervescência da instantaneidade promovida pela tecnologia atual, Tom Holland interpreta um Peter Parker confuso com as responsabilidades e a popularidade de herói. Em meio a tudo isso, quer mostrar a força de seus poderes e provar seu valor, principalmente diante dos Vingadores com foco em Tony Stark (Robert Downey Jr.), uma espécie de tiozão tutor.

Aliás, Parker disfarça sua dupla identidade ao falar que tem um estágio na empresa Stark, coisa típica dos aprendizes na fase colégio/faculdade. Nesse contexto, é o Homem de Ferro como tutor que lhe dá um uniforme ultra high-tech. Apesar ser algo exagerado, mostrando um herói dependente de tantos apetrechos – o que chega a irritar o público –, há um tom reflexivo até mesmo no “saber usar” da modernidade: Homem-Aranha precisa provar que consegue se virar sem os modernos apetrechos.

Nessa empreitada, o fator principal que mistura descobertas infanto-juvenis e o caráter responsável e difícil em ter superpoderes é o vilão Abutre. Interpretado por Michael Keaton, Toomes (Abutre) é um ex-funcionário da Stark que monta uma máfia fabricante de armas hiper potentes com peças descartadas, restos e cargas roubadas de materiais de força bélica.

Com estilo descolado e descontraído, o diretor Jon Watts sabe brincar com a fama de herói menos útil, mostrando alguém na puberdade com suas paixões do colégio. Em sua vida pessoal, Parker tem uma paquera de colégio altamente emblemática – uma aluna importante no clube de estudos, Liz (Laura Harrier) –, e o amigo nerd Ned (Jacob Batalon), que morre de admiração pelo amigo e se mostra extremante útil em ajudar o Homem-Aranha. Finalmente, houve um grande acerto em meio aos filmes da Marvel. Homem-Aranha é engraçado sem ser ridículo e forçado. Consegue ser divertido com boas tiragens e é uma maturação do personagem que nos faz torcer por ele. Sem dúvidas, uma ótima sacada!

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