Nota: 8 / Nathalia Barbosa

O “Eu” ao início do título do filme idealizado pelo diretor alemão Uli Edel dá a ideia de autobiográfico, aproximando-se do livro. Porém, para quem espera um tom confidente materializado em voz off pode se decepcionar.

A seleção para o roteiro, feita por Edel e os jornalistas Kai Herman e Horst Rieck, que colheram os depoimentos de Christiane durante seu julgamento pela polícia alemã, dando origem  ao livro, reduziu muita coisa. O longa mostra uma Christiane (Natja Brunckhorst) aventureira e logo no início já foca em sua ida à boate Sound, com a amiga Kessi (Ellen Esser), considerada a mais moderna de Berlim.

Não há a mesma contextualização do livro – um conjunto de prédios chamado Gropius onde não há espaço para lazer de crianças, um pai abusivo que espanca as filhas e a esposa, tendo vergonha da própria família, nem do desencantamento de Christiane ao se mudar do campo para a cidade.  A grande atuação de Natja consegue transmitir a sensação de desamparo da jovem nessa época, mas não é suficientemente forte como a crítica social do livro que expõe várias problemáticas relacionadas a frustrações oriundas de uma sociedade de consumo pós-guerra.

Na primeira ida de Christiane F. à Sound, ela já conhece Detlef (Thomas Haustein) e apesar de resistir a muitas coisas que a boate lhe oferecia, tendo certo juízo de que aquilo era errado, a adolescente logo se rende aos encantamentos de perigos que lhe prometem uma fuga da realidade.

Há, então, uma linda sequência de um roubo com seu grupo de amigos a um shopping: adolescentes frustrados correndo e caindo em meio a vitrines de estética clean. Era a exposição do choque entre liberdade e lugares cada vez mais higienistas e padronizados enquanto toca “Heroes”, de David Bowie, representando a ideia daquele que faz algo extraordinário ao menos um dia. Para alguns, pode soar como uma inspiração a “As Vantagens de Ser Invisível”, escrito e dirigido por Stephen Chbosky.

A questão é que tudo fica trash quando todos são apresentados a uma droga mais pesada em moda na época: ironicamente, a heroína. Após um show de Bowie — o filme realmente conta com a participação do artista, ídolo da protagonista na vida real — o qual Christiane vai com seu amigo Frank, o mais viciado da turma, ela decide experimentar após arrumar a droga para seu amigo que estava em crise de abstinência. A narrativa, a partir deste ponto, foca na degradação de jovens que se prostituem para suprirem a “necessidade” de heroína.

O que temos, então, são cores frias em cenários espalhados pela estação de metrô Zoo, onde drogados fazem qualquer coisa pela droga e a morte dos viciados passar a ser o cotidiano publicado pelos jornais. Apesar da falta de contextualização, deixando o filme moderadamente raso, e encurtamento da trajetória de Christiane — o filme, por exemplo, não mostra seu relacionamento com Atze —, a mensagem ainda é objetiva: drogas não valem a pena. Mas para quem, mesmo assim, achou o filme pesado, isso é quase nada se comparado ao livro.

   

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