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Papo reto sobre a Sétima Arte

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Espaço do Renato

Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016)

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NOTA: 9 / Felipe Ribeiro

Brasil, Pernambuco, Recife, Praia da Boa Viagem, Edifício Aquarius. Essa é a localidade em que acontece o novo longa dirigido por Kleber Mendonça Filho. Com quase duas horas e meia de duração, “Aquarius” é um filme de personagem, em que acompanhamos o passado e o presente da confiante, inteligente e destemida jornalista Clara, interpretada de forma incrível e madura por Sônia Braga. Pelos primeiros versos da música tema do longa, podemos perceber a importância da memória e a força dessa mulher: “Hoje / Trago em meu corpo as marcas do meu tempo”.

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A Criada (Park Chan-Wook, 2017)

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NOTA: 9 / Lorena Carvalho

Fazer uma crítica sobre “A Criada” sem falar demais é um grande desafio. Isso porque o filme coreano sobre uma tentativa de golpe tem como maior trunfo o fato de ser recheado de reviravoltas que enganam o próprio espectador. Numa mistura de drama, romance e mistério, o longa consegue criar um suspense de uma maneira brilhante e o resultado é a satisfação quase que completa do público.

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O Cinema Brasileiro e o Caminho do Meio

Renato Furtado*

Durante o Festival do Rio, tive a oportunidade e a honra de fazer parte do grupo de jovens críticos do Talent Press Rio, primeira edição do programa de treinamento de críticos de cinema do Festival de Berlim aqui no Rio. O ensaio a seguir, que lanço aqui às véspera de 2017, é o meu produto final para o programa e reflete um caminho possível para o futuro do nosso cinema:

O cinema sempre se viu no cruzamento entre a arte e a indústria. Um filme pode ser tanto um objeto artístico quanto um produto comercializável, e, como todo produto, precisa de um público consumidor.

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Narcos (Netflix, 2016)

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NOTA: 9,5 / Renato Furtado

O retorno é sempre mais difícil. Em diversas áreas artísticas, é comum ver que o segundo trabalho de muitos artistas que foram muito celebrados por suas estreias, acabam sendo mais fracos ou mais criticados. Isso acontece, evidentemente, porque o primeiro trabalho estabeleceu um padrão muito alto. Fazer uma estreia muito boa é para poucos; manter o nível de qualidade é para pouquíssimos.

Esse cenário também se repete com a primeira e segunda temporadas de muitas séries (vide o caso da queda de qualidade de “How to Get Away With Murder”, por exemplo), séries cujas premissas iniciais eram tão únicas que o padrão de qualidade estabelecido se tornou muito alto. Felizmente, “Narcos”, uma das melhores séries da Netflix, não sofre dessa maldição. Como seu personagem principal, “Narcos” possibilitou o impossível: a segunda temporada é ainda mais fantástica que a primeira.

O que a estrutura de boas sequências dos cinemas podem nos informar é que, normalmente, o sucesso destas continuações se dá a uma fórmula bem simples: esquema (ou seja, a estrutura apresentada durante a primeira temporada) + variação. Os showrunners de “Narcos” parecem ter entendido a mensagem de maneira perfeita e cumpriram a missão à própria maneira: eles retiraram o que não funcionava muito bem, mantiveram o espírito e a estética e procuraram variações dramáticas em uma arma que já possuía.

Antes de mais nada, um dos grandes esforços da primeira temporada era como integrar o personagem e a família de Boyd Holbrook, o agente da DEA Steven Murphy, ao mundo do narcotráfico colombiano de Medellín. Quando queríamos acompanhar alguma ação, evento ou personagem mais interessante, acabávamos forçados a seguir os passos de Murphy. Agora, Holbrook está muito mais sólido (melhorou imensamente como ator) como narrador do que protagonista.

Além disso, a estética trazida por José Padilha, produtor executivo da série, e pelo talentosíssimo diretor de fotografia brasileiro Lula Carvalho é mantida e o caráter de docudrama (documentário dramatizado, em uma tradução livre) continua conduzindo a narrativa de modo a imergir o espectador mais facilmente na trama. A montagem da série continua impecável, as escolhas de canções estão ainda melhores e as composições do também brasileiro Pedro Bromfman continuam mantendo a atmosfera de “Narcos” no mais alto nível.

Mas, sem sombra de dúvidas, o que faz da segunda temporada de “Narcos” ser tão incrível quanto é, é a arma que os produtores já possuíam: Wagner Moura. É fato que o maior desenvolvimento do agente Javier Peña, personagem do ótimo Pedro Pascal e a introdução do fiel Limón, muito bem interpretado por Leynar Gomez faz com que o elenco seja ainda maior, mas é inegável que a joia da produção é a performance de Moura. Em resumo: ele é um monstro da atuação.

Nesta temporada, o que Moura faz é de cair o queixo. Sua tarefa, complicadíssima, é realizada de maneira exemplar: Moura humaniza Pablo Escobar ainda mais e conquista o público. Ele é, como os estadunidenses gostam de dizer, magnético. É impossível tirar os olhos dele e cada vez que aparece em cena, toda a série ganha um brilho a mais.

Sua variação de emoções é gigantesca e suas capacidades cênicas parecem ser inesgotáveis; Wagner Moura tem aquilo que só os grandes possuem: ocupa confortavelmente o coração da narrativa – como se tivesse nascido ali – e transmite sentimentos e emoções e captura o olhar do público com o mais leve gesto – o dedo que roça o cabo do telefone, as palavras que não saem, os olhos penetrantes. Se ele – e a série – não vier a ser indicado aos prêmios de atuação em séries no Globo de Ouro e no Emmy do ano que vem, será um verdadeiro crime.

Com Pablo Escobar, Wagner Moura entra definitivamente na categoria dos maiores atores do mundo e ajuda a inserir tanto o seu personagem quanto “Narcos” na história da televisão mundial. Uma temporada memorável para uma série memorável.

 

#DESCUBRA: O Que Nós Fizemos No Nosso Feriado (DICA GOLD #02)

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Renato Furtado

A coluna Descubra é, principalmente, sobre o lado D do cinema; o lance é que o lado D nem sempre precisa ser o lado esdrúxulo do cinema e da tevê – apesar de ser quase sempre assim, é verdade. Com a combinação de #DESCUBRA com a #DICAGOLD, trazemos um lado do cinema que é aquele lado da garimpagem da Netflix. Por isso, o filme de hoje é a dramédia (só usei esse termo para falar mais uma vez quanto eu odeio o termo) “O Que Nós Fizemos no Nosso Feriado” – sério candidato a título mais longo do catálogo de streaming.

Narrando a história de uma família (os pais, Doug e Abi, são interpretados por David Tennant, ou Kilgrave, e Rosamund Pike, também conhecida como “Garota Exemplar” e as três crianças são interpretadas por crianças que eu não tenho a menor ideia de quem são, mas que são muito divertidas e competentes) que viaja até os confins da Escócia para encontrar e celebrar o aniversário do avô Gordie (interpretado com bom humor pelo sempre divertido Billy Connolly). O problema, no entanto, é que Gordie está com câncer e que os pais das crianças estão prestes a se divorciar – continuam juntos só para manter as aparências.

Através da direção e do roteiro de Andy Hamilton e Guy Jenkin, o cenário está posto e o drama e a comédia também. O filme é um verdadeiro exercício sobre a realidade de uma família que está prestes a entrar em colapso e, salvo alguns momentos que passam do “realismo” do resto da trama, este é um longa que sabe bem utilizar momentos pequenos e simples para tirar as emoções e reações necessárias, sejam elas lágrimas ou risadas. Não é um grande filme, fica mesmo mais próximo dos filmes que ficam um pouco acima da média; a trama frequentemente cai nas armadilhas espalhadas pelos clichês. Mas, no fim das contas e apesar de tudo, o filme conquista.

O roteiro é terno e tem carinho pelos personagens que cria, carinho principalmente pelas qualidades e, acima de tudo, pelos defeitos de cada um deles, o filme acaba aquecendo corações. Esse é o clássico filme “de boas” (que ainda consegue encontrar ressonância dramática e tratar com seriedade e delicadeza um assunto sério como a doença de Gordie, que afeta e já afetou muitas famílias ao redor do mundo). Diverte, dá aquela emocionada de leve e é real. Para o seu fim de semana relaxando com a Netflix sozinho ou sozinha, com seu namorado ou com sua namorada, com sua família, com seu cachorro ou qualquer outro ser vivo (ou inanimado, vai saber) que você quiser, fica a dica.

 

 

#DESCUBRA – Cegos, Surdos e Loucos (Dica Gold #01)

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Toda terça, a sessão #DESCUBRA traz algum flme, série ou projeto que represente o lado D (de DESCUBRA) do cinema e da tv. Mas por que não lançar um DESCUBRA sobre o lado A do cinema e da TV? Com isso em mente, a sessão #DESCUBRA mais uma vez vai ao mundo dos mortos do C2M e resgata a… DICA GOLD DA SEMANA!!! Por isso, o filme de hoje é o clássico da comédia oitentista “Cegos, Surdos e Loucos”.

Lançado em 1988, o filme é estrelado por Gene Wilder e Richard Pryor, dois dos maiores comediantes estado-unidenses de todos os tempos, que interpretam dois amigos que acabam se metendo em ALTAS CONFUSÕES quando encontram eles testemunham um assassinato. O problema é que essa TURMINHA DO BARULHO é composta por Dave (Gene Wilder), um cego e Wally (Richard Pryor), um surdo: ou seja, se juntar os dois não dá nem um inteiro.

É aquele esquema: comédia clássica de buddies (amigos) que precisam se juntar para resolver um problema. Para ser mais clássica só se tivesse uma road trip. Da era de antes do besteirol, “Cegos, Surdos e Loucos” é uma comédia com piadas genuinamente divertidas e gags visuais simples, porém eficientes – um estilo de comédia física desenvolvido pelos gênios pioneiros do cinema de comédia como Charlie Chaplin e Buster Keaton.

1989-see-no-evil-hear-no-evil-poster1 Completando o time da comédia está um jovem Kevin Spacey em uma participação mais do que especial. “Cegos, Surdos e Loucos” é um dos últimos filmes dos dois comediantes e uma boa entrada para o imenso universo do trabalho dos dois – que atuaram juntos em diversas produções.  Vale a pena conhecer (aluguem ou baixem, TORRENTE tá aí pra isso).

#DESCUBRA: O Famoso Sinal do Ronaldinho no Cinema

Renato Furtado

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A notícia é da semana passada, mas o DESCUBRA é eterno: Ronaldinho Gaúcho se juntou à galeria de estrelas do futebol que já tentaram a sorte no cinema. Ao lado de Pelé, Zico, Maradona e Eric Cantona e Vinnie Jones – dois jogadores de futebol que se tornaram atores de verdade (?) -, Ronaldinho, o único ser humano na face da Terra que se comunica com as divindades através de um hang loose (ou, no caso, o famoso sinal do Ronaldinho) integra o elenco de Kickboxer: Retaliation.

O filme é a segunda parte de uma trilogia inédita (dá para lançar muitos DESCUBRA em relação a esse filme hein?) a começar com Kickboxer: Vengeance e, no fim das contas, é tudo um remake daquele filme louco com o Jean-Claude Van Damme (qual filme em que o JCVD está e não é louco? Fica a dúvida), o clássico da porradaria oitentista”Kickboxer: O Desafio do Dragão”.

O que é importante é que o R10, antigo mestre do futebol e atual mestre das falcatruas e do migué em campo (aqui vai um salve especial para a torcida do Fluminense), vai ser uma espécie de ajudante do personagem principal uma vez que ele interpretará um preso cuja habilidade especial é uma espécie de super chute (surpreendente, não é mesmo?). E se isso tudo não é o suficiente para rolar aquele DESCUBRA, o filme terá sim a participação de JCVD e o personagem de R10 será um presidiário. Na Tailândia. Queria um spin-off estrelado pelo Ronaldinho só para saber como ele acabou preso na Tailândia. Ou talvez seja melhor deixar do jeito que está.

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Ele já tá ali no canto pronto para enfiar uma voadora com seu super chute estilo DESCUBRA. Essa é uma foto real da produção. Esse post é real. É sério.

 

O filme ainda não tem data de estreia prevista, mas o certo é que não importa a data: o que importa é que este filme com certeza vai desbancar “Avatar” de James Cameron como filme mais visto da história e que o Ronaldinho já é o primeiro forte candidato ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, primeiro forte candidato do ano a trazer o primeiro troféu cinematográfico para o Brasil.

PS: o Ronaldinho lançou uma rede social também. O curtir, obviamente, é o famoso sinal dele. Não é piada. Você pode se cadastrar aqui. Ou não.

#DESCUBRA: Rubber, o Pneu Assassino

Renato Furtado

Oito meses depois, ela está de volta! A coluna inspirada no mito Aloisio Chulapa – que sempre trazia pelo menos uma foto do mito fazendo coisas que só este mito do futebol e das redes sociais poderia fazer – retorna de uma vez por todas, agora sempre às terças, trazendo não o lado B nem o lado C do cinema e da televisão, mas sim o lado D… o lado DESCUBRA!

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Não é sempre que você pode dizer “ok, este é um dos filmes mais loucos que eu já vi” ou até mesmo “ok, este é O filme mais bizarro que eu já vi na minha vida”. Se o seu objetivo é alcançar este patamar, você sempre pode procurar no cinema japonês, que com certeza tem os filmes mais loucos e bizarros da história. Mas, como nem sempre dá para assistir um filme japonês, a solução às vezes é recorrer a uma co-produção entre a França e a Angola (como isso foi acontecer?) chamada “Rubber”, no original.

É claro que o Brasil não poderia deixar de colocar um subtítulo – só perdemos para os portugueses na arte de traduzir títulos. Mas, dessa vez, contrariando o senso comum, acertamos em cheio: Rubber aqui é Rubber, o Pneu Assassino. Sim, o subtítulo para um filme que conta a história de um pneu psicótico que ganha vida e explode tudo que vê pela frente com o seu poder da mente não poderia ser outro. Não, não é mentira. Essa é a sinopse real. Esse é sim um filme sobre um pneu assassino. É sério, não tô mentindo, olha aqui. E não para por aí não. Além de ser assassino, ele também se APAIXONA no decorrer da história por uma bela viajante.

Agora vocês devem estar se perguntando: e aí, o filme é bom? É evidente que não, o filme é horrível. Porém, contudo, entretanto, todavia, esse era o objetivo. O diretor francês Quentin Dupieux (que também é o roteirista, o diretor de fotografia e o montador do filme) é conhecido por seus filmes loucos, metalinguísticos, ácidos e bizarros, sempre realizando críticas à sociedade e ao cinema no geral. Aqui, sua crítica é direcionada ao público, sempre desejoso de ver filmes sanguinários e absurdos – e o que não falta em Rubber, o Pneu Assassino não sei se consigo mais escrever esse nome sem rir é sangue e absurdos.

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Nova pergunta: eu deveria ver esse filme? Não. Ninguém deveria ver esse filme porque ele é péssimo. Ou sim. Todos deveriam ver esse filme porque ele é péssimo. É trash e tem algumas boas ideias, além de algumas boas risadas. E é ruim.

Mas isso já dá para perceber no título. O certo é que Rubber, o Pneu Assassino meu deus essa matéria não acaba, chega de escrever esse título é o tipo de filme confuso e que confunde: que ou você vai gostar por ser terrível ou você vai odiar por ser terrível.

De qualquer forma, sobre uma coisa não há discussão: esse é o melhor filme sobre um pneu assassino de todos os tempos. Para o bem ou para o mal.

 

E se vocês aguentaram chegar até o fim do post, o trailer está aqui! Na próxima terça, tem mais do lado D do cinema!

Nas duas últimas colunas falamos sobre a refilmagem colombiana de Breaking Bad e sobre as “origens” do Quarteto Fantástico no cinema aqui e aqui.

 

 

 

 

Os vencedores do SAG Awards 2016!

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Renato Furtado

Na grande temporada de premiações, resta apenas uma cerimônia. O Globo de Ouro (cada vez mais irrevelante) e os Prêmios do Sindicato dos Atores (SAG) já foram e agora só falta mesmo o Oscar, no dia 28 de fevereiro. Ontem, dia 30 de janeiro, quando a cerimônia do SAG foi encerrada, ficou evidente que o assunto que toma o meio cinematográfico no momento ficou ainda mais quente e ainda mais urgente.

Contudo, antes de mais nada, vamos falar um pouco sobre alguns dos ganhadores – dessa vez, focaremos mais no cinema. Das quatro categorias de atuação cinematográficas – melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante -, tivemos apenas uma vitória realmente surpreendente e que embolou ainda mais o jogo. Alicia Vikander venceu a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em A Garota Dinamarquesa e complicou a situação: anteriormente, Rooney Mara e Kate Winslet eram, praticamente, as únicas favoritas ao prêmio; agora, adicione o enorme talento de Vikander e está criada uma situação quase impossível de ser prevista. Na opinião do C2M, o Oscar ainda fica com Mara, mas é certo que sua vitória ficou muito mais difícil agora.

Para as categorias de melhor ator e melhor atriz tudo correu como o esperado. Brie Larson venceu por seu papel em O Quarto de Jack e Leonardo DiCaprio venceu por seu papel em O Regresso, ambos merecidamente. Conforme os dois vão dominando todas as premiações pelas quais passam, o Oscar fica mais próximo e cada vez mais difícil de não ser entregue a eles. Larson é simplesmente brilhante e está destinada a ser uma das maiores atrizes do mundo em poucos anos; quanto a DiCaprio, apresentações e elogios são quase dispensáveis, uma vez que sua maestria e genialidade são de conhecimento público.

Na categoria de melhor elenco em filme (a de série de comédia ficou com Orange is The New Black e a de drama com o cast de Downton Abbey), Spotlight venceu com sobras. O filme continua certamente como um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme, ainda que não seja o melhor filme de ano. Uma vitória de A Grande Aposta na noite passada teria embolado mais o páreo – especialmente porque A Grande Aposta é um filme bastante superior a Spotlight, longa cuja estrutura um tanto quanto capenga, funciona apenas por causa de seu maravilhoso elenco. Prêmio merecido.

Falta falar de uma categoria cinematográfica, uma que não surpreendeu – pelo menos, não surpreendeu nossa equipe. Dentre os filmes e pessoas não indicados ao Oscar, a falta mais gritante é, sem sombra de dúvidas, a de Idris Elba na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Ainda que Mark Rylance, Mark Ruffalo, Sylvester Stallone, Christian Bale e Tom Hardy – principalmente estes dois últimos – estejam perfeitos em seus filmes, o fato é que Elba jogou em um nível diferente no ano de 2015, fez cinema de uma maneira que só os gênios podem fazer. E, ainda assim, não foi indicado ao Oscar, esnobado pela Academia, que lhe roubou uma estatueta quase garantida. Sua vitória no SAG (esmagadora ao ser complementada pela seu triunfo na categoria Melhor Ator de Telefilme/Minissérie por Luther, uma das melhores séries dos últimos anos), não é só uma vitória sua; é uma vitória da diversidade e um verdadeiro soco na cara da Academia.

A pancada se tornou ainda mais forte quando Uzo Aduba, Viola Davis e Queen Latifah venceram os prêmios de suas categorias (melhor atriz em série de comédia, melhor atriz em série de drama e melhor atriz em telefilme/minissérie, respectivamente). Ainda que nenhuma delas tenha sido premiada por um desempenho em um filme – a Academia só premia trabalhos cinematográficos, vale lembrar -, o fato é que elas representaram um verdadeiro ponto de virada nas discussões das últimas semanas – para saber mais, leiam o texto do Caio aqui.

Essas vitórias – além do triunfo de “Birth of a Nation” em Sundance, um filme sobre a escravidão e de mais um prêmio para Jeffrey Tambor por seu inspirador papel em Transparent no SAG, categoria de Melhor Ator em Série de Comédia – mostram que a questão da diversidade e da falta de representatividade – ou seja, da falta gritante de atores de gêneros, etnias e orientações sexuais diversas, e diferentes de homens brancos heterossexuais, no cinema e na televisão – nos meios do entretenimento não precisa ser debatida: precisa ser resolvida. Ainda que a conversa precise seguir um longo caminho para derrubar as ideias retrógradas que, infelizmente, comandam o jogo cinematográfico, já passou o tempo do debate; agora é o momento de fazer o que precisa ser feito.

Evidentemente, isso vai muito além de um aparente preconceito da Academia. Não diria que a Academia é especificamente preconceituosa – a presidente é uma mulher negra, vale ressaltar. O buraco é mais embaixo: o jogo é preconceituoso. Mudar as regras da Academia, mudar os membros que votam e convidar pessoas que representem mais e mais gêneros e etnias e orientações sexuais é, certamente, um passo à frente, mas um passo pequeno. Na realidade, o que mudará serão as regras de votação e quem vota, mas a grande questão permanece: votação para premiação nenhuma resolve a falta de papeis e trabalhos para as minorias.

A solução reside em uma mudança radical de mentalidade. Seria impossível, por exemplo, premiar Idris Elba ou Viola Davis alguns anos atrás porque os dois sequer estavam à frente de grandes séries ou grandes filmes. Não se pode votar, nomear, indicar, celebrar ou premiar alguém por algum trabalho que essa pessoa não realizou, um trabalho que essa pessoa não teve a chance, a oportunidade de realizar. É como diria a própria Viola, no seu discurso de aceitação do Emmy pelo seu brilhante papel em How to Get Away With Murder: “Você não pode vencer um Emmy por um papel que simplesmente não existe […] o que separa as mulheres de cor (negras, latinas, asiáticas e por aí vai) do resto é a falta de oportunidades”.

Portanto, os prêmios do SAG de ontem à noite são um verdadeiro colírio para os olhos cansados. Há um longo, longo caminho para ser percorrido, mas as vitórias desses atores e atrizes faz com que o debate se mantenha vivo, que não seja varrido para baixo do tapete e que nos dê alguma esperança de ver resolvida a situação. Um dos atores do brilhante elenco de Straight Outta Compton disse, em entrevista à TNT, que “está otimista” em relação ao debate e toda esta questão. É preciso estar otimista mesmo: o momento é propício e a mudança pode ser atingida.

A lendária Carol Burnett – ao aceitar o prêmio de honra celebrando sua carreira ontem no SAG – disse que uma vez disseram a ela que o mundo do entretenimento era para homens. À época, ela balançou a cabeça, disse um sonoro não, provou a todos que o mundo estava errado e ontem ganhou o prêmio de honra da noite. Há muito a ser feito, mas os passos estão sendo dados graças à coragem de todos os atores e atrizes que representam as minorias. A todos eles, nossos agradecimentos e nossa solidariedade por continuar fazendo do mundo um lugar melhor através do cinema e da televisão. Muito obrigado e vamos em frente.

 

A lista completa dos ganhadores do SAG Awards você confere aqui!

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